Já faz algum tempo que tenho me dedicado a compreender a ideia de fenomenologia proposta por Husserl, que tem direta aplicação na Gestalt Terapia de Perls, cujo ramo da psicologia se tornou o único no qual ainda deposito alguma credibilidade. Na verdade é praticamente um ideal (viver o agora, jogar a culpa no lixo e todos os jargões hedonistas do gênero). E isso antes de me deparar com o Krishnamurti, cujas ideias acabaram de vez com qualquer interesse que eu pudesse ter sobre qualquer coisa que trate o ego e/ou o superego. Recordo-me que há um tempo atrás, enquanto almoçava, a amiga de uma colega do trabalho, que é psicóloga, estava contando alguma história de alguém que deveria se tratar e eu fiz um comentário do tipo: “Estou tão descrente na psicanálise e na psicologia, acho que não devemos tratar, dar ênfase ao ego. A única linha que ainda me atrai é a Gestalt” e ela me rebateu com um tapa na cara, do tipo “- O superego deve ser extinto sim, mas sem o ego, como você vai vier em sociedade, cumprir suas tarefas diárias etc?”. Hoje entendo que ela tinha razão.
De tudo que eu já li e estudei, com exceção das coisas religiosas, as ideias do Krishnamurti foram as mais perigosas. Perigosas porque nós, reles seres humanos, não estamos preparados para tamanha desconstrução. Explico.
A fenomenologia diz que tudo que vemos é subjetivo. Pra dar uma explicação bem banal, é aquela coisa, uma mesa não é só uma mesa, como é para a visita que acaba de chegar na sua casa pela primeira vez. Quando você olha para a sua mesa, ela é mais que uma mesa, ela tem história e portanto, nenhuma outra pessoa será capaz de enxergar aquela mesa, como você enxerga. E se isso pode ser aplicado a um objeto, imagina quando isso é aplicado à pessoas do seu convívio e à ideias? Podemos concluir que diante da fenomenologia, a mente tem um papel fundamental, afinal sem ela, as coisas não seriam únicas como são para cada um de nós. E diante das ideias do Krishnamurti, a mente há de ser abolida. Gente, isso é um perigo.
Cada dia mais, me deparo com pesquisas que constatam a eficácia do efeito placebo em doenças e outra coisa com a qual não dá pra discutir, é com o efeito ou os inúmeros efeitos da fé. É meus caros, assim como uma simples mesa de madeira pode se tornar um conforto ao relatar-lhe tantas histórias e tornar-se quase um ser mágico, deus pode existir sim, quando a mente o cria e nele acredita.
O problema é que eu sempre persegui a verdade e talvez por isso as ideias do Krishanmurti tenham me encantado tanto. Hoje posso dizer que eu sempre fui muito burra. Hoje eu sou uma cínica, eu não acredito em nada e não tenho esperança alguma. Bom, esse era o meu objetivo. A questão é que eu realmente acreditava que quando chegasse a esse ponto, eu estaria dentro da mais absoluta paz, mas isso não aconteceu. Ah, Caio Fernando Abreu já sabia, “(...) tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”
Por vezes, me pego desejando a fé, desejando com todas as minhas forças que algo como destino de fato exista. Mas não vai, porque uma vez que você enxerga que deus foi criado pelo homem, pela mente, que todas essas coisas foram criadas pelo sentimento de impotência e insignificância do homem que precisava acreditar que era único, que pra ele tem um destino, que existe um ser onipotente no qual ele pode se espelhar, você não pode, nem jamais poderá voltar atrás.
É ainda pior quando você é moralista. E hoje eu tenho ganas de assumir que eu sou uma moralista. Porque apesar de não acreditar em deus, nem no inferno, nem na penitência e muito menos na vida eterna, eu faço tudo ou pelo menos tento fazer tudo “direito”. Pagar as contas em dia (se atraso, me descabelo), tento não mentir, ainda que isso machuque os outros, tento ajudar, não usar drogas, não cometer excessos, não ser hipócrita, não ter prazeres sem propósito, enfim, todas essas coisas tipicamente cristãs. Afinal sabe como é, quando você não presta contas a ninguém, só lhe sobra você pra prestar as contas e quando você resolve ver as coisas como elas são, não dá pra sair da linha, afinal você, o juiz, está com você o tempo todo.
E ainda tem outro problema: Na vida real, você não é recompensado por ser “bom”. Na vida real, os ladrões ficam ricos e você fica pobre. Os hipócritas estão cheios de amigos e você está sozinho. O galinha está sempre acompanhado e você está lendo um livro. O bom vivant aproveita a vida, enquanto você é absolutamente e irreversivelmente infeliz.
Acabou o romantismo da vida. Por esta razão não tenho escrito e provavelmente não vou escrever com frequência ou não escreverei. Prefiro ler algo que ainda seja uma ode a ilusão. Algo que me faça escapar por algumas horas desta condição terrível e irreversível de falta de fé.
Eu só escrevi tudo isso pra poder dizer: Meus caros, desistam enquanto é tempo. A verdade não vale a pena.
2 comentários:
Neste meio tempo recebi a dádiva da paz e desvendei os meandros do ego.
E você?
HAHAHA
Desvendei os meandros do ego, mas isso de nada me adiantou. Paz? purff. Um sonho distante.
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