sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ode a ilusão

Já faz algum tempo que tenho me dedicado a compreender a ideia de fenomenologia proposta por Husserl, que tem direta aplicação na Gestalt Terapia de Perls, cujo ramo da psicologia se tornou o único no qual ainda deposito alguma credibilidade. Na verdade é praticamente um ideal (viver o agora, jogar a culpa no lixo e todos os jargões hedonistas do gênero). E isso antes de me deparar com o Krishnamurti, cujas ideias acabaram de vez com qualquer interesse que eu pudesse ter sobre qualquer coisa que trate o ego e/ou o superego. Recordo-me que há um tempo atrás, enquanto almoçava, a amiga de uma colega do trabalho, que é psicóloga, estava contando alguma história de alguém que deveria se tratar e eu fiz um comentário do tipo: “Estou tão descrente na psicanálise e na psicologia, acho que não devemos tratar, dar ênfase ao ego. A única linha que ainda me atrai é a Gestalt” e ela me rebateu com um tapa na cara, do tipo “- O superego deve ser extinto sim, mas sem o ego, como você vai vier em sociedade, cumprir suas tarefas diárias etc?”. Hoje entendo que ela tinha razão.

De tudo que eu já li e estudei, com exceção das coisas religiosas, as ideias do Krishnamurti foram as mais perigosas. Perigosas porque nós, reles seres humanos, não estamos preparados para tamanha desconstrução. Explico.

A fenomenologia diz que tudo que vemos é subjetivo. Pra dar uma explicação bem banal, é aquela coisa, uma mesa não é só uma mesa, como é para a visita que acaba de chegar na sua casa pela primeira vez. Quando você olha para a sua mesa, ela é mais que uma mesa, ela tem história e portanto, nenhuma outra pessoa será capaz de enxergar aquela mesa, como você enxerga. E se isso pode ser aplicado a um objeto, imagina quando isso é aplicado à pessoas do seu convívio e à ideias? Podemos concluir que diante da fenomenologia, a mente tem um papel fundamental, afinal sem ela, as coisas não seriam únicas como são para cada um de nós. E diante das ideias do Krishnamurti, a mente há de ser abolida. Gente, isso é um perigo.

Cada dia mais, me deparo com pesquisas que constatam a eficácia do efeito placebo em doenças e outra coisa com a qual não dá pra discutir, é com o efeito ou os inúmeros efeitos da fé. É meus caros, assim como uma simples mesa de madeira pode se tornar um conforto ao relatar-lhe tantas histórias e tornar-se quase um ser mágico, deus pode existir sim, quando a mente o cria e nele acredita.

O problema é que eu sempre persegui a verdade e talvez por isso as ideias do Krishanmurti tenham me encantado tanto. Hoje posso dizer que eu sempre fui muito burra. Hoje eu sou uma cínica, eu não acredito em nada e não tenho esperança alguma. Bom, esse era o meu objetivo. A questão é que eu realmente acreditava que quando chegasse a esse ponto, eu estaria dentro da mais absoluta paz, mas isso não aconteceu. Ah, Caio Fernando Abreu já sabia, “(...) tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”

Por vezes, me pego desejando a fé, desejando com todas as minhas forças que algo como destino de fato exista. Mas não vai, porque uma vez que você enxerga que deus foi criado pelo homem, pela mente, que todas essas coisas foram criadas pelo sentimento de impotência e insignificância do homem que precisava acreditar que era único, que pra ele tem um destino, que existe um ser onipotente no qual ele pode se espelhar, você não pode, nem jamais poderá voltar atrás.

É ainda pior quando você é moralista. E hoje eu tenho ganas de assumir que eu sou uma moralista. Porque apesar de não acreditar em deus, nem no inferno, nem na penitência e muito menos na vida eterna, eu faço tudo ou pelo menos tento fazer tudo “direito”. Pagar as contas em dia (se atraso, me descabelo), tento não mentir, ainda que isso machuque os outros, tento ajudar, não usar drogas, não cometer excessos, não ser hipócrita, não ter prazeres sem propósito, enfim, todas essas coisas tipicamente cristãs. Afinal sabe como é, quando você não presta contas a ninguém, só lhe sobra você pra prestar as contas e quando você resolve ver as coisas como elas são, não dá pra sair da linha, afinal você, o juiz, está com você o tempo todo.

E ainda tem outro problema: Na vida real, você não é recompensado por ser “bom”. Na vida real, os ladrões ficam ricos e você fica pobre. Os hipócritas estão cheios de amigos e você está sozinho. O galinha está sempre acompanhado e você está lendo um livro. O bom vivant aproveita a vida, enquanto você é absolutamente e irreversivelmente infeliz.

Acabou o romantismo da vida. Por esta razão não tenho escrito e provavelmente não vou escrever com frequência ou não escreverei. Prefiro ler algo que ainda seja uma ode a ilusão. Algo que me faça escapar por algumas horas desta condição terrível e irreversível de falta de fé.

Eu só escrevi tudo isso pra poder dizer: Meus caros, desistam enquanto é tempo. A verdade não vale a pena.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Carta a Mário de Sá Carneiro

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Nova casa

Para os meus leitores mais presentes, assim como prometido, avisei um a um... ao menos os que eu sei que estão sempre lendo o que eu escrevo.

Ainda não sou telepática (não descarto mais nenhuma possibilidade... rs), portanto deixo aqui o endereço para os interessados anônimos:

Flores são Flores

Só clicar no link ;)

=*

quinta-feira, 28 de abril de 2011

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Quase 2 anos e meio de Extravios e Roubos. Este foi meu terceiro blog (sem contar o mulherzinha), vocês podem conferir os outros nos links do lado direito.

Acho que blog serve pra isso né? Pra gente mostrar coisas da gente e esta é a razão pela qual eu fico trocando de blog - é um pra cada estação. Vou construir um novo, of course. Ainda não sei como vai ser ou como vou intitulá-lo, afinal ainda estou definindo esta estação da minha vida. Mas estejam certos de que vou avisá-los, meus queridos leitores, um a um.

Agradeço pela atenção, pelos comentários e por tudo que vocês partilharam aqui comigo ao longo desses anos de, eu sei lá, inquietação, sombra e revolta, talvez.

Vejo vocês em breve.



I hid the keys to unlock love's heart
To hold you in my sweetest pain and suffering
Everything's unfair in our lust and war
Redemption beyond right and wrong

In our hearts love keeps sweet-talking to despair

And goes on sleepwalking past hope
All is lost in this war
And all we can do is to wail and weep to the saddest song
Sleepwalking past hope

I unlit the light to embrace the dark
To be near but not to turn into you my darling

Forever we're lost in our souls' storm

Reflections of each other's faults

I gave up long ago
Painting love with crimson flow
Ran out of blood and hope
So I paint you no more

My hell begins from the 10th and descends to the circle

Six hundred threescore and six
And from there I crawl beneath Lucifer's claws just for one last kiss.

http://www.youtube.com/watch?v=P8wBaWeap5g&feature=related#

(H.I.M. "Sleepwalking Past Hope")

Letter #30

Diva! (rs),

Muito me agrada a idéia de ter ultrapassado um extremo de vaidade que sempre habitou o meu ser. É engraçado porque, apesar de eu sempre ter tido a consciência da minha beleza (não é metidez, porra! Não sou perfeita, mas sou bonita), eu sempre a amaldiçoei de certa forma, sim, porque eu a culpava pelos meus deslizes e pelas minhas frustrações amorosas. Cheguei a engordar mais de vinte quilos e vocês podem ter certeza que foi o meu psicológico que fez isso. Eu costumava repetir que a beleza era uma maldição. Meu corpo acabou acreditando.

Por outro lado, eu sempre cobrei muito de mim, uma celulite que fosse era motivo de não sair de casa. Juro, eu deixei de ir a inúmeros lugares porque estava me sentindo inchada ou gorda ou wathever. Ridícula.

A idade às vezes (só às vezes) é uma coisa fantástica. A gente muda. A gente se aceita. A gente se ama mais. A gente passa a valorizar e enxergar outras bonitezas em nós mesmos que na idiotice da juventude jamais seríamos capazes.

Enfim, eu só queria dizer aqui que quando me deparo com o espelho eu gosto do que eu vejo. Eu vejo sim um ser sofrido, mas um ser cada vez mais verdadeiro, mais batalhado, mais humilde e, portanto, belo.

Eu vejo uma Diva.

E chega dessas cartas, e chega de Extravios, deus!

=*

Letter #29

Removida.

Letter #28

Eu me recuso a repetir ainda mais destinatários, então vou passar sem este desgaste, okay?

Pro bem ou pro mal, os possíveis destinatários desta carta seriam a Íris, o Dani, a Andressa, a Adriana, e.


Letter #27

Paula querida,

(respondendo seu e-mail)

Também adorei conhecer você. Peço desculpas pelo péssimo estado de espírito que me encontrava no dia em que fomos à sua casa... detesto levar esse tipo de energia para a casa dos outros, ainda mais para a casa de vocês, pessoas tão dóceis.

Fico contente que tenha gostado do blog. Este projeto de cartas que me propus a seguir está sendo importante pra mim... sabe, me fez perceber o quanto eu andava amargurada pelos pesares da vida. Não quero mais carregar tudo isso, na verdade acho que me libertei daquelas correntes e daquele peso, mudanças são quase sempre dolorosas (no mínimo dão o maior trabalho), mas sei e sinto que vou sair de tudo isso bem melhor. As mágoas e rancores entre eu o Dani já se foram, estamos juntos, e bem, mas ele está indo embora no fim do mês.

Acho que assim como eu, você não deve ter muitos amigos por aqui, e com essa coisa de ficar sem carro o dia todo, deve também se sentir só às vezes. Saiba que também estou aqui pra quando precisar ou sei lá, apenas tomar um café ou jogar conversa fora. Anote meus telefones, não se acanhe de ligar, caso precise de algo ok?

Um abraço querida e um "xêro" na Manu delícia!

Beijos!

Letter #26

Eu não faço promessas.